Sempre duvido da interpretação de pesquisas tradicionais, que avaliam intenção de compra. Geralmente, elas induzem a grandes erros mercadológicos.
Lembro-me de duas cenas que assisti na sala de espera do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, e registrei como se fossem o recorte de um filme de sátira social.
Sabe aquela jovem senhora, que insiste em dizer que tem 35 anos de idade, já passou dos 48, porém com corpinho de 30, cabecinha de 13 e a roupitcha da filha de 18?
As duas, mãe e filha, entraram na sala de espera do aeroporto Santos do Dumont, apinhado de homens com pastas negras. Ambas tinham o cabelo loiro natural, embora, não sei por que insistem em tingir as raízes de negro. A mãe não conseguia disfarçar que vestiu a fantasia da filha, saia curtinha, blusa decotada e adereços extravagantes. Elas fingem que não notam os olhares de perplexidade dos homens, que se ajeitam e torcem o pescoço para observá-las, desfilam até as primeiras poltronas, sentam-se e abrem uma revista Caras. Com a ansiedade de quem vai realizar um sonho, folheiam e devoram a revista, com suspiros e trejeitos de satisfação, em um ritual muito sério, como se olhassem no espelho dos desejos e se vissem em cada foto estampada na revista.
Em contraponto, ao lado delas, duas senhoras, que até o mais incauto observador diria que já passavam dos 70, vestidas com sobriedade, riam sem pudor, lendo e comentando a revista Bundas, do humorista, cartunista e escritor Ziraldo. Presenciei essas cenas reais e insólitas em abril de 2000. Olhava de uma cena para a outra e não acreditava no que via.
Não consegui resistir: ao descer do avião, em São Paulo, comprei as duas revistas. Eu precisava entender as personagens, saber por que tão patético o contraste entre a jovem com a mãe vendo Caras, com a mesma seriedade de um diretor de empresa lendo um jornal de economia e negócios e, pelo outro lado, a cena das duas idosas rindo sem constrangimento com a revista Bundas aberta e exposta para escárnio dos observadores.
Li as revistas e descobri: mãe e filha realizavam o impulso infantil de ascensão social, mirando-se em celebridades com e sem cérebro, para sonhar com a doce vida dos famosos, com a fantasia de ser princesa em um reino encantado onde o céu é sempre azul e não existe violência, bala perdida, corrupção na política e a fome pode acabar com um quilo de feijão roxinho trocado pelo ingresso de um show beneficente. As duas senhoras, por sua vez, em sua maturidade, riam sem se importar com nada, apenas com a piada impressa. Riam pelo o simples prazer do entretenimento.
Nenhuma pesquisa me contaria com tanta eloqüência o perfil das quatro personagens. Talvez, se entrevistadas, as senhoras dissessem que lêem Caras e as jovens fariam caras e bicos para afirmarem com toda segurança que achavam Bundas muito divertido. É, pesquisa tem disso: é muito freqüente o entrevistado dizer uma coisa e fazer outra.


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