A classe C está na moda. Parece que a descobriram ontem. Tem até tem gente que posa como se a tivesse inventado agorinha mesmo. Porém, os exemplos de empresas de supermercados que prosperaram atendendo consumidores de baixo poder aquisitivo são infinitos. O mais expressivo é o do ousado Mamede Paes Mendonça.
Mamede construiu um império comercial e sua empresa – Supermercados Paes Mendonça – reinou nas décadas de 1970 e 1980 entre as cinco maiores redes do País. De sua origem, de lavrador, com as mãos calejadas, guardava a simplicidade de avaliação dos negócios e objetividade, sem artifícios complexos, para tomar decisão. Tudo que ele fazia parecia errado aos olhos de professores, consultores e parceiros. O veredicto dos papas do mercado era ‘esse velho é louco; não se pode fazer isso; ele vai dar com os burros n’água’.
Contrariando a tudo e a todos, seus empreendimentos resultavam em retumbantes sucessos. Onde ele colocava a mão virava ouro. Quando saiu da Bahia, em 1984, para abrir a primeira loja em São Paulo, os mais otimistas diziam: ‘dessa vez o velho se ferrou. Onde já se viu abrir uma loja com 15 mil metros quadrados de área de venda na Zona Leste?’
A loja, no Tatuapé, bairro com moradores de médio e baixo poder aquisitivo, parecia totalmente fora de qualquer sintonia com o perfil da região. Não bastasse ser o maior hipermercado da cidade, era também o que abrigava o maior sortimento de produtos importados, sem se falar no sofisticado restaurante de carnes, ao lado da loja.
Pouco antes da inauguração, entrevistei Mamede e perguntei: como o senhor projeta o retorno do investimento, considerando que a população deste bairro é de baixo poder aquisitivo?
Na sua linguagem de caboclo, entrecortada por uma insistente e metódica gagueira, que ritmava seus pensamentos e o sotaque cultivado em Itabaiana, cidadezinha incrustada em Serra do Machado, interior de Sergipe, respondeu:
– Olha moço, o povo daqui é trabalhador. O pai trabalha, a mãe trabalha, o filho trabalha e a filha também trabalha. Esse povo ganha muito dinheiro e tem muito para gastar.
Ele estava certo. Desmentindo a tudo e a todos, a loja explodiu de vender.


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