Matamos o freguês e o shopper foi ao velório

É infalível: de repente todas as empresas estão caçando o shopper. Em todas as reuniões ele é o desconhecido mais presente. Sim, o shopper, um ser não identificável a olho nu, que parece ter saído de um filme de ficção para entrar em seu supermercado, fazer compras e sair no anonimato, como um clandestino viajando no porão escuro de um navio cargueiro.

Precisamos tirar esse ser da penumbra. Vamos dar vida a ele e chamá-lo pelo seu verdadeiro nome: Freguês. Isso mesmo, freguês!

Talvez você não se lembre dele. O freguês morreu quando as lojas de secos & molhados, vendas, mercearias, empórios e bodegas se transformaram em auto-serviço. A partir daí matamos o freguês e começamos atender o cliente. Freguês não era mais condizente com lojas tão modernas. Cliente sim, era palavra bonita, chique de se dizer, até parecia coisa de doutor, mesmo porque até então só doutores tinham clientes.

O cliente, por sua vez, quando adquiriu mais direitos, passou a ser o consumidor, um indivíduo respeitado, paparicado, mas igualmente desconhecido, embora com um código de leis em sua defesa. Em nenhum momento, porém, conquistou a privilegiada posição de freguês de caderneta, conhecido do balconista, que muitas vezes era o dono da loja. Sumiu o balcão e o balconista. A caderneta deu lugar ao cartão de crédito. E o freguês? Bem, ele foi ganhando sinônimos – cliente, consumidor – e agora importamos o elegante shopper.

Não importa o apelido que damos ao freguês. Hoje, você dispõe de todos os recursos tecnológicos para identificar cada consumidor e suas preferências, falta só criar o balconista eletrônico para cuidar de cada grupo de clientes e, assim, retribuir em ofertas, dedicação e atenção o privilégio dele ter escolhido sua loja. Aí, pode até chamá-lo de shopper que não vai fazer muita diferença.

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1 comentário ↓

#1 Luciana Corrêa em 07.26.10 as 17:16

Vou contar uma ‘historinha”. Dia desses, fui até um antigo relojoeiro da Bela Vista trocar a bateria do meu relógio de pulso. Na hora que pagar pelo produto e pelo serviço fui informada de que ali não se aceita cartão crédito. Eu, claro, com pose de mulher moderninha metida a besta, não carregava nada na carteira além do cartão. Diante o meu embaraço, o dono da relojoaria se antecipou em me acalmar: “Olha, não se preocupe, você paga depois”. Quase caí de costas. Nem sabia como agradecer tamanha gentileza do simpático senhor, afinal ele nunca tinha me visto na vida. Saí de lá espalhando a ‘historinha” pra todo o mundo e nem preciso dizer que o relojoeiro ganhou uma freguesa. Fiel!! Ser tratada com atenção e respeito, é o que todos queremos, sempre.

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